20. “Minha Contradição: o Fim da Picada”
Percevejo, percevejo...Este crava fotos com tradição familiar. Aquele – bicho!
10.1.08
31.12.07
"Duas mãos e o Sentimento do Mundo"- Microconto 19
19- “Duas Mãos e o Sentimento do Mundo”
Meditou – quatro: número do equilíbrio. Entrementes, drummoniano, ficou em pé.
Meditou – quatro: número do equilíbrio. Entrementes, drummoniano, ficou em pé.
6.12.07
"Processador Central" - Conto breve-Ficção científica(inédito)
“Processador Central”
Por Marco Antônio de Araújo Bueno
Fui chamada às pressas ao pequeno apartamento de Liza. Era madrugada alta, tempo chuvoso. Mas, faminta apenas, ocupava-me em juntar condimentos leves à mistura das refeições do dia e escutava Ginastera, a “Variação canônica para oboé e fagote”; relíquia recuperada pelo meu ócio resignado desses últimos anos. Os 2:31 minutos que levava à repetição ad nauseum, repetição em volume reduzido nem tanto - enlevando-me e velando o misterioso sono de minha vizinhança zumbi. Quando em vez, fumava pelas frestas de um basculante; a fumaça conspiratória denunciada pela lúgubre luminância da rua fantasma. Pois bem, Liza, tivera um daqueles pesadelos reais.
Registrou o sonho, Liza? Não. Mas contou-me o suficiente às minhas anotações e, tendo antes ligado para mãe e, esta, insistido na idéia de recorrer a mim para acompanhar Liza ao centro, parecia mais determinada a agir que propriamente angustiada.
Interrompi o processamento dos meus resíduos culinários, insisti para que ela recolhesse do ralo do esquecimento, do aquém-linguagem, os resíduos de seu pesadelo e, com uma gravidade emputecida na voz, tentei dissuadi-la a se embrenhar pelo centro, como zumbi, na ilusão de mitigar suas intimidades angustiadas naquela maquinaria suspeita do “CPP” – nome obscuro para uma autarquia que se pretendia como um organismo público de processamento de pesadelos. Um contra senso instituído, em face da alta incidência de distúrbios do sono – pesadelos, aferida pelo Ministério do Trabalho e Lazer, desde o início de 2036.
Liza, sejamos razoáveis, passar por sessões relâmpago de dramatização do óbvio – que são ou teus fantasmas mesmo, ora! Filas, senhas e mais filas de pessoas apavoradas que não trocam palavra com medo de perder a vaga, depois...a Máquina! Mas mamãe conhece o sobrinho do homem da estatal que sabe de um psiquiatra gnomotivista-experimental (...). No cinzento daquela manhã, incapaz ou sem alma suficiente para dissuadir Liza de farfalhar sua singularidade pelos receptores daquela incubadora caleidoscópica., de espargir seus fragmentos oníricos pelos corredores de uma repartição pública cartorial, setorizada...kafkiana, minha recusa foi lapidar. Preciso passar pela “Retro-sensibilização”, retorquiu minha amiga, convicta de que já estivera impregnada por pesadelos classe “D” por mais de duas vezes naquele quadrimestre; risco de demissão na certa! Classe “D”, ruminei? É! “D”, de derrelição?! Ela recordou-se do texto de Hilda Hilst, mas não adiantou. Pairava sob síndrome de abstinência de substância específica: sentido.
Entrei pela manhã relendo fragmentos de alguns clássicos. Entre eles –Gilles Deleuze sobre coisas como a “máquina desejante”. Nas ruas, Liza, atarantada, na pressa, agonizava atropelada. Seu fantasma, para redimir minha recusa, lembrou-me um verso de “Iracema”, um clássico também, de Adoniran Barbosa: (...)"travessou contramão! E eu? “Eu sempre dizia”, deveras. Era a minha questão central. Paga ainda “meus alfinetes”, hoje.
Por Marco Antônio de Araújo Bueno
Fui chamada às pressas ao pequeno apartamento de Liza. Era madrugada alta, tempo chuvoso. Mas, faminta apenas, ocupava-me em juntar condimentos leves à mistura das refeições do dia e escutava Ginastera, a “Variação canônica para oboé e fagote”; relíquia recuperada pelo meu ócio resignado desses últimos anos. Os 2:31 minutos que levava à repetição ad nauseum, repetição em volume reduzido nem tanto - enlevando-me e velando o misterioso sono de minha vizinhança zumbi. Quando em vez, fumava pelas frestas de um basculante; a fumaça conspiratória denunciada pela lúgubre luminância da rua fantasma. Pois bem, Liza, tivera um daqueles pesadelos reais.
Registrou o sonho, Liza? Não. Mas contou-me o suficiente às minhas anotações e, tendo antes ligado para mãe e, esta, insistido na idéia de recorrer a mim para acompanhar Liza ao centro, parecia mais determinada a agir que propriamente angustiada.
Interrompi o processamento dos meus resíduos culinários, insisti para que ela recolhesse do ralo do esquecimento, do aquém-linguagem, os resíduos de seu pesadelo e, com uma gravidade emputecida na voz, tentei dissuadi-la a se embrenhar pelo centro, como zumbi, na ilusão de mitigar suas intimidades angustiadas naquela maquinaria suspeita do “CPP” – nome obscuro para uma autarquia que se pretendia como um organismo público de processamento de pesadelos. Um contra senso instituído, em face da alta incidência de distúrbios do sono – pesadelos, aferida pelo Ministério do Trabalho e Lazer, desde o início de 2036.
Liza, sejamos razoáveis, passar por sessões relâmpago de dramatização do óbvio – que são ou teus fantasmas mesmo, ora! Filas, senhas e mais filas de pessoas apavoradas que não trocam palavra com medo de perder a vaga, depois...a Máquina! Mas mamãe conhece o sobrinho do homem da estatal que sabe de um psiquiatra gnomotivista-experimental (...). No cinzento daquela manhã, incapaz ou sem alma suficiente para dissuadir Liza de farfalhar sua singularidade pelos receptores daquela incubadora caleidoscópica., de espargir seus fragmentos oníricos pelos corredores de uma repartição pública cartorial, setorizada...kafkiana, minha recusa foi lapidar. Preciso passar pela “Retro-sensibilização”, retorquiu minha amiga, convicta de que já estivera impregnada por pesadelos classe “D” por mais de duas vezes naquele quadrimestre; risco de demissão na certa! Classe “D”, ruminei? É! “D”, de derrelição?! Ela recordou-se do texto de Hilda Hilst, mas não adiantou. Pairava sob síndrome de abstinência de substância específica: sentido.
Entrei pela manhã relendo fragmentos de alguns clássicos. Entre eles –Gilles Deleuze sobre coisas como a “máquina desejante”. Nas ruas, Liza, atarantada, na pressa, agonizava atropelada. Seu fantasma, para redimir minha recusa, lembrou-me um verso de “Iracema”, um clássico também, de Adoniran Barbosa: (...)"travessou contramão! E eu? “Eu sempre dizia”, deveras. Era a minha questão central. Paga ainda “meus alfinetes”, hoje.
29.11.07
"Infanticídio" - Microconto 18 (Dez palavras)
18. “Infanticídio”
...ração matinal; foi-se. Golpe-1 da foice...imensidão canavial do dia.
...ração matinal; foi-se. Golpe-1 da foice...imensidão canavial do dia.
27.11.07
"Fragmento Parnasiano Pop" - Microconto 17(Inédito/para concurso)
23.11.07
"Uma dor; do nada?"- Microconto 16 (Dez palavras):
22.11.07
Recuperado o cartoom do Miran -Mote do soneto "testemunhado" pela Oficina de Nelson de Oliveira/06

Pela data ( 02/2007)ou busca no blog ("Aniversário de um poema de oficina...")chega-se às circunstâncias que envolveram a construção de um "soneto" ("Aquele cuja fome espera")que se abriu a tantas e tão díspares interpretações, quando premiado em concurso, e, capa de alguns sites, quase já aniversariando (é de 2006!), implodiu suas potencialidades de polissemia. Caso curioso do que Umberto Eco chamaria "obra aberta". Ou vicissitudes de hermenêuticas literárias extemporâneas. Ou essas alquimias literárias, etc., etc., não?
20.11.07
"Nós na Cama" - Crônica publicada no Garganta da Serpente
No site www.gargantadaserpente.com.br,busque em Prosa , seção "Veneno Crônico, a partir de 19 de Novembro de 2007 (http://www.gargantadaserpente/veneno/)
Tinha pedido para a Agostina publicar essa crônica (escrita para a revista "Showroom",em minha coluna "COTIDIANO", da WW - www.assobrav.com.br(o que explica tratá-los por "carro leitor", tinha pedido que a publicasse junto ao microconto "Nós na Rede". É que se trata, alé do contraste e da diferença de gêneros literários, também de "nós" diferentes. Compare buscando no índice.
Tinha pedido para a Agostina publicar essa crônica (escrita para a revista "Showroom",em minha coluna "COTIDIANO", da WW - www.assobrav.com.br(o que explica tratá-los por "carro leitor", tinha pedido que a publicasse junto ao microconto "Nós na Rede". É que se trata, alé do contraste e da diferença de gêneros literários, também de "nós" diferentes. Compare buscando no índice.
14.11.07
"Expedientes Maternos-I": microconto 15
15. “Expedientes Maternos I”
Temendo muito que os filhos caíssem, acolchoava seus porta retratos.
Temendo muito que os filhos caíssem, acolchoava seus porta retratos.
5.11.07
Minguante.com 8 já na rede. Há novidades.
Vale a pena acompanhar todo o esforço de teorização e as peças de
micronarrativa do único site internacional a respeito, com cerca de
uma centena de colaboradores : www.minguante.com (Portugal)
micronarrativa do único site internacional a respeito, com cerca de
uma centena de colaboradores : www.minguante.com (Portugal)
30.10.07
Minha estréia no www.cronopios.com.br_30/Out/07
Navalha na Tarde
O psicanalista e escritor Marco Antônio de Araújo Bueno estréia no Cronópios. Vale conferir.
O psicanalista e escritor Marco Antônio de Araújo Bueno estréia no Cronópios. Vale conferir.
24.10.07
Ensaio sobre literatura e psicanálise - URL da publicação
http://www.roboretro.com/articles.php?art_id=37&start=1
19.10.07
COMUNICADO ÀS EDITORAS
Vide meu cadastro no www.mesadoeditor.com.br (aberto a todos)onde se encontram
trinta e três textos de minha autoria (protegidos pela "Creative Commmons"- em Direitos autorais). Tais textos constam distribuídos por mais de uma dezena de gêneros, dos ficcionais (poesia, contos, microcontos, sonetos, acrósticos)ao acadêmico (ensaios, artigos, crítcas literárias, pareceres), passando pelas peças epistolares (cartas-ficcionais ou não), reflexões, et. Estarão dispostos nessa base de dados até Abril de 2008.
Meu e-mail principal: araujobuenopsi@gmail.com - Campinas-SP
trinta e três textos de minha autoria (protegidos pela "Creative Commmons"- em Direitos autorais). Tais textos constam distribuídos por mais de uma dezena de gêneros, dos ficcionais (poesia, contos, microcontos, sonetos, acrósticos)ao acadêmico (ensaios, artigos, crítcas literárias, pareceres), passando pelas peças epistolares (cartas-ficcionais ou não), reflexões, et. Estarão dispostos nessa base de dados até Abril de 2008.
Meu e-mail principal: araujobuenopsi@gmail.com - Campinas-SP
"Gagueira Fundamental"
“Gagueira Fundamental”
Por Marco Antônio de Araújo Bueno
A expressão não é minha, pertence ao G. Deleuze, filósofo contemporâneo que bate duro contra os conformismos conceituais e fustiga as bizarrices desta nossa hipermodernidade tão tagarela, tão exuberante em respostas pra tudo e tão... lacunar. Lacunas abissais de sentido, no jeito de consumir e expressar idéias e afetos. Gagueira, aqui, não é coisa de fono nem de generalismos psicológicos. É atitude! Forma de resistência contra a fluência domesticada. E foi outro filósofo de prenome abreviado “G”, outro Gilles, o Lipovetsky, quem cunhou “hipermodernidade” bem a propósito de uma analogia com hipermercado...
Não é minha, mas me pertence por dois motivos. Primeiro, eu a adotei, e só não a tenho praticado pra fazer compra básica, ir ao banco ou abastecer o carro, coisas que não me tomam muito tempo. Segundo motivo: estou ficando gago, cada vez mais gago, e de propósito!
O pano de fundo da resistência proposta por G.Deleuze é a obra de arte, e ele vai fundo na postura de transgressão, que constitui a potência que a demarca, na linha direta de Nietzsche. Pega o “ponto G”, pra não perder nem o trocadilho nem a alusão a uma espécie de orgasmo do sentido, embutida em seus “agenciamentos” filosóficos. Para o que me interessa aqui, o contexto é a comunicação, e a postura (esqueçam “atitude”, palavrinha já reabsorvida e estéril) é a de emancipação. De quê? Do tédio, no mínimo. Ou, pra ficar mais elegante, da colonização dos meus atos de fala, por uma espécie de eloqüência pré-editada, essa que me obriga a dizer conforme. Tirante as saudações (Alô! Bom dia!, Belê?) e a burocracia dos formulários verbais, considero um delito grave preencher silêncios com a verborragia prescrita pela cartilha do papo-jacaré, contra a fobia do não ter o que dizer. Pois é prescrição mesmo, com poderes de regulamentação do ritmo, da velocidade, da adequação às circunstâncias e, pior...do que deixa de ser falado pelo fluxo da própria falação.
Falar pra manter-se incomunicável, já que, tamanha é a excessividade de tudo, que a própria ameaça de silêncio... conspira. A gente passa um rodo nos fragmentos de informação do dia, retira-lhes qualquer contexto, separa tudo em bloquinhos e gruda neles alguns adesivos ou ícones, como rótulos bem práticos. Agora é só esperar uma sinalização, uma ameaça de conversa e pronto, o “kit blábláblá” estará operante. Contemplamos pouco, refletimos menos ainda. E falamos pelos cotovelos. Incomunicabilidade - palavrão, pois sim, hiperpalavra pra palavra pouca.
Estamos vivendo rente ao fantasma dos fatos; os fatos perdendo sua carga de significação para as imagens e estas, pulverizando-se, substituindo-se umas às outras, viram borrões isolados. Para nos orientarmos, apontamos para borrões e emitimos ruídos. Quando decodificados, temos a ilusão do diálogo, da troca simbólica. Na verdade, permanecemos mudos.
Pois estou me desobrigando de responder a esse padrão de mutismo ruidoso. E apresento-lhes esse meu “des-falar”, sob a forma de uma gagueira subversiva. Como funciona?
Bem, de cara é necessário uma não aceitação fundamental: a de submeter o que há de singular em mim (dimensão estética) e de outrem (dimensão ética) ao idêntico. Não se trata apenas de “respeitar” a diferença, é preciso trazê-la à visibilidade escancarada, cutucá-la com a vara curta do silêncio, das pausas longas, da recusa ao tatibitate marmanjo habitual. Isto é gagueira.
Ao contrário do que se pensa, os vacilos verbais recheados de gíria e outras embreagens coloquiais (dos muito jovens, por exemplo), a titubeante falsa modéstia dos “operários-padrão” da linguagem dominante (das celebridades sob holofotes, por exemplo) e outros estereótipos da má fluência ensaiada (do pseudodiscurso acadêmico dos economistas, da pseudo-religiosidade dos vigaristas do ramo da fé, da indignada “moralidade” de políticos golpistas-o “exemplo”, por excelência...), nada disso é, aqui, o que chamo de gagueira. É tudo jogo de cena ou malvadeza retórica. Comparados às esquisitices de linguagem que brotam nas salas de bate-papo, estas lhes superam em riqueza pura, verdadeiros diamantes do tesouro da Língua, e ponto.
Só pra ilustrar a idéia dessa gagueira, imaginem o Pivô, o competente entrevistador da TV francesa (separando bem o Jô... do trigo), todo hiperbólico e loquaz entrevistando uma conhecida escritora. Ele esperneia palavras, pergunta o imperguntável, abusa do lugar-comum, vertiginosamente palavroso. Ela (incomum, singular, reflexiva) subverte o tempo televisivo, comete longas pausas, pensa longo e responde curto, reticente. Questiona-se vagarosa e docemente, repete finais de frases, incorpora e sustenta a fragilidade do dizer, silenciando a platéia. E Pivô? Pouco riso e muito siso.
Responder questionando-se a si próprio no outro, eis uma nobre estratégia de gagueira. Uma “nanoprofilaxia” contra os microtraumatismos de todo falar esvaziado. Gagueira.
Dizem que é coisa de analista. Concordam com isto? Faz mal bater um papo assim aflito com alguém? Aflita, Hilda Hilst confidenciou-me certa vez (se é que faz sentido juntar confidência com Hilda Hilst...) que um escritor não deveria dar entrevista: “(...) é muito difícil pra mim... falar, falar das coisas que não se esgotaram no escrito (...) falar de mim, que escreve...”.
Inventaram um guarda-chuva que avisa quando vai chover! E se não chover? Você o carrega fechado, claro, até ele avisar. Então você o abre até que pare de chover e depois o fecha quando a chuva parar, embora ele não avise que a chuva parou. “Será que vai chover?” Já dizia Herbert Viana - o compositor, e emendava: - “Eu acho que vai chover”.A música falava da mulher que “despistava” o tempo todo, diante de um cara carente de atenção. E a gente anda carente de inventividade. Gaguejar é resistir, deixar pistas de si pelos cotovelos e descobrir toda a carência sob guarda-chuvas que não avisam nada, e vivem esquecidos pelos cantos.
Por Marco Antônio de Araújo Bueno
A expressão não é minha, pertence ao G. Deleuze, filósofo contemporâneo que bate duro contra os conformismos conceituais e fustiga as bizarrices desta nossa hipermodernidade tão tagarela, tão exuberante em respostas pra tudo e tão... lacunar. Lacunas abissais de sentido, no jeito de consumir e expressar idéias e afetos. Gagueira, aqui, não é coisa de fono nem de generalismos psicológicos. É atitude! Forma de resistência contra a fluência domesticada. E foi outro filósofo de prenome abreviado “G”, outro Gilles, o Lipovetsky, quem cunhou “hipermodernidade” bem a propósito de uma analogia com hipermercado...
Não é minha, mas me pertence por dois motivos. Primeiro, eu a adotei, e só não a tenho praticado pra fazer compra básica, ir ao banco ou abastecer o carro, coisas que não me tomam muito tempo. Segundo motivo: estou ficando gago, cada vez mais gago, e de propósito!
O pano de fundo da resistência proposta por G.Deleuze é a obra de arte, e ele vai fundo na postura de transgressão, que constitui a potência que a demarca, na linha direta de Nietzsche. Pega o “ponto G”, pra não perder nem o trocadilho nem a alusão a uma espécie de orgasmo do sentido, embutida em seus “agenciamentos” filosóficos. Para o que me interessa aqui, o contexto é a comunicação, e a postura (esqueçam “atitude”, palavrinha já reabsorvida e estéril) é a de emancipação. De quê? Do tédio, no mínimo. Ou, pra ficar mais elegante, da colonização dos meus atos de fala, por uma espécie de eloqüência pré-editada, essa que me obriga a dizer conforme. Tirante as saudações (Alô! Bom dia!, Belê?) e a burocracia dos formulários verbais, considero um delito grave preencher silêncios com a verborragia prescrita pela cartilha do papo-jacaré, contra a fobia do não ter o que dizer. Pois é prescrição mesmo, com poderes de regulamentação do ritmo, da velocidade, da adequação às circunstâncias e, pior...do que deixa de ser falado pelo fluxo da própria falação.
Falar pra manter-se incomunicável, já que, tamanha é a excessividade de tudo, que a própria ameaça de silêncio... conspira. A gente passa um rodo nos fragmentos de informação do dia, retira-lhes qualquer contexto, separa tudo em bloquinhos e gruda neles alguns adesivos ou ícones, como rótulos bem práticos. Agora é só esperar uma sinalização, uma ameaça de conversa e pronto, o “kit blábláblá” estará operante. Contemplamos pouco, refletimos menos ainda. E falamos pelos cotovelos. Incomunicabilidade - palavrão, pois sim, hiperpalavra pra palavra pouca.
Estamos vivendo rente ao fantasma dos fatos; os fatos perdendo sua carga de significação para as imagens e estas, pulverizando-se, substituindo-se umas às outras, viram borrões isolados. Para nos orientarmos, apontamos para borrões e emitimos ruídos. Quando decodificados, temos a ilusão do diálogo, da troca simbólica. Na verdade, permanecemos mudos.
Pois estou me desobrigando de responder a esse padrão de mutismo ruidoso. E apresento-lhes esse meu “des-falar”, sob a forma de uma gagueira subversiva. Como funciona?
Bem, de cara é necessário uma não aceitação fundamental: a de submeter o que há de singular em mim (dimensão estética) e de outrem (dimensão ética) ao idêntico. Não se trata apenas de “respeitar” a diferença, é preciso trazê-la à visibilidade escancarada, cutucá-la com a vara curta do silêncio, das pausas longas, da recusa ao tatibitate marmanjo habitual. Isto é gagueira.
Ao contrário do que se pensa, os vacilos verbais recheados de gíria e outras embreagens coloquiais (dos muito jovens, por exemplo), a titubeante falsa modéstia dos “operários-padrão” da linguagem dominante (das celebridades sob holofotes, por exemplo) e outros estereótipos da má fluência ensaiada (do pseudodiscurso acadêmico dos economistas, da pseudo-religiosidade dos vigaristas do ramo da fé, da indignada “moralidade” de políticos golpistas-o “exemplo”, por excelência...), nada disso é, aqui, o que chamo de gagueira. É tudo jogo de cena ou malvadeza retórica. Comparados às esquisitices de linguagem que brotam nas salas de bate-papo, estas lhes superam em riqueza pura, verdadeiros diamantes do tesouro da Língua, e ponto.
Só pra ilustrar a idéia dessa gagueira, imaginem o Pivô, o competente entrevistador da TV francesa (separando bem o Jô... do trigo), todo hiperbólico e loquaz entrevistando uma conhecida escritora. Ele esperneia palavras, pergunta o imperguntável, abusa do lugar-comum, vertiginosamente palavroso. Ela (incomum, singular, reflexiva) subverte o tempo televisivo, comete longas pausas, pensa longo e responde curto, reticente. Questiona-se vagarosa e docemente, repete finais de frases, incorpora e sustenta a fragilidade do dizer, silenciando a platéia. E Pivô? Pouco riso e muito siso.
Responder questionando-se a si próprio no outro, eis uma nobre estratégia de gagueira. Uma “nanoprofilaxia” contra os microtraumatismos de todo falar esvaziado. Gagueira.
Dizem que é coisa de analista. Concordam com isto? Faz mal bater um papo assim aflito com alguém? Aflita, Hilda Hilst confidenciou-me certa vez (se é que faz sentido juntar confidência com Hilda Hilst...) que um escritor não deveria dar entrevista: “(...) é muito difícil pra mim... falar, falar das coisas que não se esgotaram no escrito (...) falar de mim, que escreve...”.
Inventaram um guarda-chuva que avisa quando vai chover! E se não chover? Você o carrega fechado, claro, até ele avisar. Então você o abre até que pare de chover e depois o fecha quando a chuva parar, embora ele não avise que a chuva parou. “Será que vai chover?” Já dizia Herbert Viana - o compositor, e emendava: - “Eu acho que vai chover”.A música falava da mulher que “despistava” o tempo todo, diante de um cara carente de atenção. E a gente anda carente de inventividade. Gaguejar é resistir, deixar pistas de si pelos cotovelos e descobrir toda a carência sob guarda-chuvas que não avisam nada, e vivem esquecidos pelos cantos.
5.10.07
Microconto 14: "Desertor no Deserto"- Partes I e II_ Inspirado do filme"Paradise Now", de Hany Abu-Assad, 2005
14. “Desertor no Deserto” -PARTE I
Doze anos, palestino fronteiriço, dois de treino. Paramentou-se: explosivos, celular...
“Desertor no Deserto” – PARTE II
Ao toque, sacou dispositivo junto. Sucumbiu; deserto. Tel-Aviv/paraíso - Doze km!
Doze anos, palestino fronteiriço, dois de treino. Paramentou-se: explosivos, celular...
“Desertor no Deserto” – PARTE II
Ao toque, sacou dispositivo junto. Sucumbiu; deserto. Tel-Aviv/paraíso - Doze km!
27.9.07
Drops teóricos sobre a micronarrativa: J.M.Merino: "[MC] muy cercano al alforismo, a la poesia, pero CON MOVIMIENTO!"

Questionado por W.M. Sabogal ("El País.com)sobre como "descobrir o néctar" do microconto, J.Maria Merino responde: -" Si aciertas. Hay gente que piensa que en el
microrrelato [mais abrangente, penso, que "Microconto"]vale cualquier cosa (...)breve no quiere decir que sea un microrrelato.Tiene que tener sustancia, movimiento
por poquito que sea. Es una quintaesencia narrativa,capaz de moverse e cambiar desde el principio hasta el fin. Ofrece una munanza.
A esta "mudanza", esta experiência reveladora, pretendo adicionar a idéia de Epifania, tal como surge em Clarice Lispector e na escrita de James Joyce, este, a
quem J. Lacan dedica o Seminário XXVIII- "Sinthoma".A propósito da ilustração (que devo a Ju Ramasini -a idéia- e à polivalente equipe do www.postoqueposto.blogspot.com do Dani Serrano, blogueiro do jornalismo), alguém notou a figura icônica de Franz Kafka decalcada no início do muro. Suas histórias curtas, intensas e misteriosas constituem uma das vertentes do Microconto no ocidente. A outra, de extração hispanoamericana, remete desde a um Rubén Dario e Julio Torri até ao "Dinossauro" do guatemalteco Augusto Monterroso.
25.9.07
Microcontos 12 e 13 (Dez palavras)
12. “A Colhida”
Na morada derradeira jogou toalha. Noites assim, minguantes – perspectivas déjavu!
13. “Tempoespaço”
-“Por quê não vai pra p.q.p.?”- “Demora mó longe, mano!”
Na morada derradeira jogou toalha. Noites assim, minguantes – perspectivas déjavu!
13. “Tempoespaço”
-“Por quê não vai pra p.q.p.?”- “Demora mó longe, mano!”
20.9.07
Drops teóricos sobre a micronarrativa
Los microrrelatos tienden a desaparecer si se los mira de frente: son demasiado tímidos y traslúcidos. Para escribirlos basta con tomar un poquito de caos y transformarlo en un miniuniverso. Como las pirañas, son pequeños y feroces. Aconsejo descartarlos si no muerden
Ana María Shúa
Em tempo: A ligação entre microcontos e a epifania, coisa que buscarei demonstrar,remete à escrita joyciana. Nem é preciso muitos "ais" de algum Antônio;
nem carece frequentar o "Quartier Lacan" (Seminário 23- 0 Sinthoma).O ficcionista
Burgess, um Anthony, aliás, escreveu também "uma introdução a James Joyce para o
leitor comum"! Este é o sub-título de seu livro "O Homem Comum Enfim". Digo "também"
porque foi ele quem escreveu o profético "Laranja Mecânica"...Coincidências;epifânicas ?
Ana María Shúa
Em tempo: A ligação entre microcontos e a epifania, coisa que buscarei demonstrar,remete à escrita joyciana. Nem é preciso muitos "ais" de algum Antônio;
nem carece frequentar o "Quartier Lacan" (Seminário 23- 0 Sinthoma).O ficcionista
Burgess, um Anthony, aliás, escreveu também "uma introdução a James Joyce para o
leitor comum"! Este é o sub-título de seu livro "O Homem Comum Enfim". Digo "também"
porque foi ele quem escreveu o profético "Laranja Mecânica"...Coincidências;epifânicas ?
13.9.07
"Nós na Rede"_ Microconto 10 (Dez palavras)
.: “Nós na Rede”
Antes dos “giga” éramos gigantes entre acervos, territórios.Reticularam-me;amesquinhado
Antes dos “giga” éramos gigantes entre acervos, territórios.Reticularam-me;amesquinhado
20.8.07
7.8.07
"Redesencontro"_Microconto de seis palavras
“Redesencontro” – 03
- Cara!
- É, coroa; magistério?
Daria jogo?
- Cara!
- É, coroa; magistério?
Daria jogo?
28.7.07
26.7.07
"Breve História do Horror"_microconto 09_Dez palavras
"Breve História do Horror"
Por Marco Antônio de Araújo Bueno
Outrora vinha do céu.Do cosmos.Atualmente está...no ar.
Por Marco Antônio de Araújo Bueno
Outrora vinha do céu.Do cosmos.Atualmente está...no ar.
"Trivial Melancolia"_microconto 08_Dez palavras
"Trivial Melancolia"
Por Marco Antônio de Araújo Bueno
Ridículo não era o ócio dela,era o pum, gente!
Por Marco Antônio de Araújo Bueno
Ridículo não era o ócio dela,era o pum, gente!
25.7.07
"Crueza Sutil do Seqëstro"_Microconto 07_07/07/2007_Para ti
“Crueza sutil do seqüestro”
Tamanha precisão ao nomeá-lo...Hoje – servidão: preciso, aflito d’algum eco!
Por Marco Antônio de Araújo Bueno
Microconto 07 (parâmetro: 10 palavras)
Tamanha precisão ao nomeá-lo...Hoje – servidão: preciso, aflito d’algum eco!
Por Marco Antônio de Araújo Bueno
Microconto 07 (parâmetro: 10 palavras)
16.7.07
"Patrulhas & Matilhas"
Novalis apareceu-me em sonho-"'Crime e Castigo', vociferava extemporâneo,vôa!"
Microconto (10 palavras)
Obs.: Especial para um site de contos onde uma pendenga grassa, pela graça da
presença de microconto. Teria causado espécie?
Microconto (10 palavras)
Obs.: Especial para um site de contos onde uma pendenga grassa, pela graça da
presença de microconto. Teria causado espécie?
4.7.07
"Agenda"_ Oficina-Mote: Depressão, pressão...
“Agenda"
Por Marco Antônio de Araújo Bueno
Depressão é a Quarta da semana
Espremida entre uma segunda Terça
E outra Quinta que profana
A sexta em que a precipita.
Vem de pressão em pressão, decaída.
E cai, despenca; rebenta balaio consumido.
Precipitação de um fora para o fundo
Liquefeito na evasão insana. Um Sancho
De Quixote prescindido.
E emenda vazios com vazio não cerzido.
E no frio, respinga ainda suor na agenda,
Comprimindo risco, cuspe e fato
Num garrancho esquartejado.
Compreensão? Coisas da vida? Não!
Depressão é a letra tremida.
Por Marco Antônio de Araújo Bueno
Depressão é a Quarta da semana
Espremida entre uma segunda Terça
E outra Quinta que profana
A sexta em que a precipita.
Vem de pressão em pressão, decaída.
E cai, despenca; rebenta balaio consumido.
Precipitação de um fora para o fundo
Liquefeito na evasão insana. Um Sancho
De Quixote prescindido.
E emenda vazios com vazio não cerzido.
E no frio, respinga ainda suor na agenda,
Comprimindo risco, cuspe e fato
Num garrancho esquartejado.
Compreensão? Coisas da vida? Não!
Depressão é a letra tremida.
2.7.07
"Variações do Desvario"_Micro Conto 04(10 palavras)
Variações do Desvario"
Marco Antônio de Araújo Bueno
Naquela loucura de vida, enlouqueceu.Marido achou aquilo muito louco.
Marco Antônio de Araújo Bueno
Naquela loucura de vida, enlouqueceu.Marido achou aquilo muito louco.
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